Por mais que eu vague por terras, rios, céus, raios, chuvas, arco-íres, planetas e até o cometa que trouxe o Pequeno Príncipe pra terra, não adianta, sempre vou achar mulheres que vivem em função dos sentimentos.
Não adianta dizer que não, porque a resposta vai ser sempre, sim.
Os sentimentos que eu cito não são aqueles “furrecas” que a gente sente todos os dias, aquela coisa de ambição, malícia, prazer, ciuminho, invejinha... NÃO! O negócio é mais grave. Estou falando do estúpido sentimento que nos atormenta desde que nascemos: o amor.
Tudo acontece quando nós nascemos, de cara, nós mulheres, ficamos apaixonadas pelos pais.
É homem, não é? Então a gente se apaixona.
Um menino se perde pela mãe, fica anestesiado pela presença e cheiro dela. Então pronto, é isso.
Nós mulheres nos apaixonamos pelos bigodes, panturrilhas finas ou não, cabelos estranhos, vozes grossas e, claro, a figura de alguém que é grande e nosso herói.
Viramos fãs de nossos pais.
Quando crescemos, encontramos no nosso coleguinha de classe uma figura patética do que não queremos. Detestamos aqueles fedelhos que só falam de carrinhos, briguinhas e futebol. Mas ai vem o estalo da droga da adolescência e a gente começa a sofrer por uma coisa que a gente nem sabe o que é.
Nossa, lembro que eu cansei de querer chamar atenção de algum imbecilzinho da minha turma e o infeliz só sabia perguntar se na minha casa tinha bola. CLARO QUE EU NÃO TINHA UMA BOLA. Eu não tinha nem irmão, como ia ter uma bola?
E acreditem, você faz de tudo pra que isso aconteça de novo, que ele fale com você, que se interesse para ir a sua casa.
Quantas vezes fiz trabalhos para aquela peste que eu achava “o gracinha” da minha vida, da minha sala, da minha escola, do Brasil? Nem eu sei dizer.
Quantas vezes implorei por uma bicicleta que até hoje não faço a menor idéia de como se sobe e anda naquilo, mas tudo tinha um grande propósito: andar ao lado dele.
Que ridículo!
Depois de um tempo você aprende que não precisa de uma bicicleta, você só precisa mexer o cabelo. PIMBA! É essa a charada, o macete, o negócio que vai revolucionar a sua vida. Ele vai te olhar e você vai sair com ele, porque, CLARO, ele vai te chamar pra sair, vai dizer que você é a menina mais bonita da escola, da rua, do bairro. E então, você acorda e vê a Maricota saindo de mãozinha dada com ele. Mãozinha uma ova, aquela mão de monstro, aquela menina horrível, aquela coisa fútil que você abomina só porque ela está de mãos dadas com o seu amor.
Que droga!
Então, de uma quase infância traumática e uma adolescência meio estranha, achando que sempre vai amar a pessoa errada, você parte para a idade que SÓ VOCÊ pensa que é adulta, pensa em viajar pelo mundo, conhecer Deus e o mundo, e já nem pensa em ser aeromoça ou médica, o seu negócio é sair e se acabar.
A gente cria asas e pensa que os 20 anos são feitos pra isso.
Se apaixona toda semana, chora todo dia, ri de si, dos outros, desabafa, faz besteiras, começa a beber, quer se apaixonar de novo, vive e vai viver pensando que o Pedrinho é o homem da sua vida, que nunca mais vai encontrar outro igual. Faz planos, vê o nome dos filhos, pensa no casamento, apresenta o pobre coitado pra família, conta pras amigas, pra sua cama, pro seu travesseiro, pras paredes, e pra o que/quem quiser ouvir. É a fase dos planos “imaturos”, a fase do sofrimento e a fase do “vai ou racha”.
Isso mesmo!
Tradução? Pois não, meus queridos.
Vai ou racha: termo usado para dizer pro mundo: “Ou vai ser esse ou não é mais nenhum”.
Pronto, chegou ao fundo do poço em pensar nisso? Bata palmas e salte. Isso acontece com todo mundo. Comigo, com a tal Maricota que andou de mãos dadas com o “meu amor”, com a Marcinha, Paulinha, Arlindolene e mais um milhão de mulheres que você não conhece.
Quando chegamos naquela fase de amor e alma renovada, Deus segure essa mulher, ela só pensa em si e, claro, no seu amor (de novo e de novo e sempre vai ser assim).
Pensamos na carreira e como vamos fazer para comprar o presentinho do amor no aniversário de 1 mês de namoro, 1 ano de namoro, do aniversário dele, do dia em que vocês ficaram pela primeira vez, do dia do primeiro eu te amo.
Quanta coisa, não?
Mas é isso mesmo que acontece. Agora nós ganhamos dinheiro pra agradar ao nosso homem e do nosso jeitinho.
Claro que esperamos ser agradadas, esperamos jantares, filmes, ir ao melhor motel da cidade, viajar, flores e mais flores, cartas... Esperamos muito. Mas cá pra nós... Me digam se eu não estou certa. É ou não é a coisa mais linda desse mundo fazer uma surpresa pro seu amor e o ver fazer a cara de que “essa é a mulher da minha vida”?!
Estão vendo como nós vivemos em função desses sentimentos?
Se o resto do mundo estiver pegando fogo e você estiver com ele, TUDO fica pra segundo plano. Nem ligamos, não nos importamos com bulhufas. Pode descer Deus, subir o diabo, até o Baco oferecer os melhores vinhos e melhores festas. Pode submergir Atlântida, o Tsunami passar ali, do nosso ladinho. Não adianta, estamos mais ocupadas fazendo outra coisa, imagine você, amando.
Se tudo aqui dentro está bom, lá fora também está.
Se o sorriso dele te deixa feliz, todo o resto do mundo pode mandar dedo na nossa cara e nós não estamos nem ai. Ainda rimos e dizemos: “tadinhos, não têm um amor como o meu, por isso estão assim”.
Tem coisa mais legal que amar?
Sério! Tem?
Se tem, me mostra ai. Vai. Só um pouquinho. Eu quero conhecer isso também.
Eu quero saber se tem algo melhor que sentir frio na barriga ou passar o dia todo escolhendo a roupa que você vai sair com ele à noite.
Eu quero saber se tem coisa melhor do que sentir aquele ciuminho bobo, se tem algo melhor do que saber que ele sente esse ciúme também.
Eu quero saber se tem coisa melhor do que rolar na cama pensando se ele está bem ou não, se ele ta dormindo direitinho. Ou melhor, de ligar pra ele na hora de um pesadelo ou pensamento ruim e ele te atende e até se fazer preocupado.
Eu quero mesmo saber se existe coisa melhor do que dormir com o seu amor, acordar com ele com aquele cheirinho, aquele abracinho, aquela voz de que não devemos sair da cama... Só mais cinco minutinhos.
Quero saber se tem coisa melhor que sentir saudade de um sorriso, de uma voz, de uma paz.
Sentimos falta até das brigas, meu Deus do céu.
Sim, nós mulheres vivemos de sentimentos. Dos bons aos ruins, ou um ou outro, não é?
Vivemos de tormentos e paz. Vivemos de idas e vindas. Vivemos de amores e desamores. Dissabores. Costumes. Vivemos do novo e do velho. Vivemos o ontem e o hoje já imaginando o amanhã.
Vivemos o amor, completamente, como ele deve ser vivido. Intenso e exagerado. Atormentando e nos deixando com os pés no chão de novo e sempre. É aquela paz que só o tormento nos traz.
